Saturday, November 07, 2009

Feminina loucura

Loucas são as mulheres. Loucas são, com seus sorrisos, suas pupilas, sua instabilidade. Loucas sentimentais, gestuais, amorosas. Mais loucos ainda são seus corpos e, loucas são, com seus corpos. Louca mesmo sou eu, por ser mulher e amar mulher - consigo juntar toda a loucura num só ser.
Ah, mas essa loucura deliciosa e destrutiva... Loucas são as mulheres, piores ainda ainda são os que as amam.

Presenças presentes

Atordoa-me o modo como os seres humanos são diferentes. Suas personalidades, o modo como lidam com a linguagem, com atitudes, com o sexo. Relações diretas e indiretas, objetivas e subjetivas.
E o grito: “Vamos trepar!”
Quem pronuncia isso? E quem, ao invés da ênfase no sexo selvagem, lida com o ato de modo tímido, temeroso, tenebroso? “Eu não gosto da palavra trepar, prefiro transar.”
Pega na minha mão, encoxa-me, toca um corpo no outro sem nenhuma outra intenção senão querer provocar, seduzir.
Outras mantém-se distantes, arredias, por mais que o corpo todo clame por sexo.
O ato sexual atropela-me – digo o ato para não dizer as mulheres, às mulheres que tanto me abalam! Me desestabilizo, nunca tenho nenhuma, porém todas mexem comigo. E daí só o que resta é observa-las, suas diversidades e adversidades. Todas são tão diferentes e, na diferença, podem destruir minha base e me deixar sem chão.

Wednesday, October 14, 2009

Algo acima e mais grave aconteceu. Não apenas uma doença. Uma desestabilização de sentimentos, de alma, de mundos, não sei. Algum ponto de centro meu se desfez.
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai, afasta de mim esse cálice
...
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado permaneço atento
Na arquibancada pra, a qualquer momento,
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim esse cálice
Entristeço-me com o nada. O nada sou eu. Na realidade entristeço-me comigo, com meu corpo, com meus limites. A vida anda cabisbaixa, falta-me saúde, falta-me sexo, falta-me a alegria que estimula nosso acordar.
Não choro, pois já me acostumei com isso. Permaneço atordoada.
Sou uma para alguns, para a maioria sou eu. E não deixo de ser eu quando estou com esses alguns. Meu corpo e meus sentimentos são meus limites.

Atordoada permaneço atenta.

Sunday, September 13, 2009

Me perco em mim para cada momento ter o prazer de me encontrar. Me perco de mim para não sofrer a inevitável sina de me ver, de me presenciar... e assim, ausento-me de meu corpo, abstraio meus defeitos e me exteriorizo no mundo, me alivio na sabedoria dos outros. Das palavras, impressas ou ditas(quem sabe nas não-ditas).
Me descubro ao me encontrar, e ao me perder... E me perco ao me descobrir. quando me vejo desse jeito, muitas vezes entro em um silencioso e incompreensível desespero - que porém passará quando perceber que não estou no vazio, mas no todo, no mundo que habita meu peito. E que minha perda é na verdade um novo descobrimento.
Minha vida é cíclica, meus estados são cíclicos. São redescobrimentos que já foram descobertos, que já estão embutidos em mim, e ainda assim parece que não consigo evitá-los. É a poesia da minha vida, essa minha circularidade.
Passo o amor através de abraços. Abraço muito menos do que gostaria, e com muito menos intensidade do que deveria. Como disse, tenho o mundo em meu peito, com todos os seus multis, hiper, complexos, e seus subjetivos e objetivos. Tenho essa intensidade, só preciso de algo mais; talvez do outro, que seja receptivo aos meus braços.
Me metamorfoseio, me poetizo e ao mesmo tempo concretizo; sou um eterno vir-a-ser que nunca chega a ser, apenas o querer vir-a-ser. E que, apesar disso, ainda consegue transpassar algum sentimento bonito no cotidiano arraigado de tradição, de costume. Na rotina de meus dias ainda existe beleza(e sempre existirá.)

Sunday, August 30, 2009

A sinusite me aterroriza. Ocorrem explosões em meu ouvido, ouço o mundo mais baixo, meu ouvido está sendo comprimido. E ainda assim estou aqui... E ainda assim te beijo, mulher desconhecida. Um beijo para uma distração.
O telefone tocou nesse instante, estão me chamando pro bar. Minha cabeça roda, meu ouvido dói, porém estou viva e acordada.
Queria fazê-la entender a intensidade de seu olhar sobre o meu. Mobiliza-me, atordoa-me e vai embora, me deixando sozinha, procurando algum lugar para me apoiar... Me apoio sobre objetos, sobre bebidas e sobre outros seres humanos, especialmente mulheres - cada vez mais raras em meu cotidiano. Assim permaneço em pé. Saio de onde estou, e sigo em frente(apesar do caminho tortuoso).

Monologos com a Vagina



Minha relação contigo começou desde o momento em que fui fecundada. Sem você , o espermatozóide de meu pai jamais teria encontrado o óvulo de minha mãe, e eu não teria sido formada. Sei que não tivemos muito contato no momento de meu nascimento, mas sabe, a culpa não foi minha. Os médicos preferiram um parto cesárea, ao invés de me trazer naturalmente. Confesso que não lembro a razão. Talvez devido aos problemas de gestação e ao meu peso raquítico, um bebe de apenas dois kilos e cem. Apesar de não ter te encontrado, você conviveu e convive comigo até hoje; talvez em algum momento o médico tenha virado para minha mãe e anunciado: É uma menina.
Dessa forma, você sempre esteve comigo. Peço perdão por nunca ter te dado muita bola durante a infância. Você era usada simplesmente para excretar urina e naqueles anos de vida, era de fato sua única função. Também não ligava nem me tocava de quantas de você existia no mundo, dentre incontáveis colegas, tias e professoras. Observar inconscientemente as meninas de saia, já mais velha, deve ter sido uma das minhas primeiras percepções de você em outras mulheres. Sempre entendi o porquê dos meninos gostarem de garotas de saia, apesar de eu, obviamente, me interessar por meninos.
Também peço perdão por isso, por um dia ter acreditado – embora talvez nunca com absoluta certeza – que meu objeto de atração eram donos de partes completamente diferentes de você. Sei que muitas de você gostam desse ser diferente, mas felizmente percebi que essa diferença para mim não me satisfaz. Assim, consegui te dar um sexo que de certa forma te completa muito mais do que o suposto “certo”, o oposto. Sei que você deve agradecer o dia em que me relacionei com uma mulher e percebi o caminho correto para nós. Não precisa.
Não vou me estender nesse assunto, pois entra em um campo que apenas eu, você e outras iguais a ti sabemos bem. A questão é: vim te agradecer. Não somente agradecer a ti por pertencer a mim, mas também agradecer a ti por pertencer as outras. O reencontro que tive com você esses dias, depois de um certo tempo sem contato contigo(dessa vez refiro-me a outra, peço que me perdoe) foi ótimo, e por mais que não tenha sido tão profundo o reencontro como gostaria, só de ter tido você de volta na minha vida já me fez feliz.
Remo calmamente dentro de meu bote. O rio está lento e só o que se houve são alguns pássaros no meio dessa imensidão de água e árvores. A água, praticamente parada, me impossibilita de me locomover com maior velocidade.
Começo a mexer meu leme de forma cada vez mais rápida e forte, afoita a chegar a tempo ao meu destino. Percebo então que, apesar de estar me movendo, muito tempo necessitaria até alcançar minha vila. Meu repouso estava longe.
Logo me canso e descanso meu mastro. Não conseguiria, e nem teria força o suficiente - principalmente de vontade, mais do que a propriamente física - para me locomover. Me encontro desmotivada.
O sol brilha tão forte e ardente na minha pele já queimada... Minha boca esta seca e os braços, duros de tanto trabalhar. Descanso meu remo em um canto e pulo, de ponta, no lago. Enquanto desço suavemente, sinto a água aliviando minha pele e relaxando momentaneamente meus músculos. Passageiro. Assim que ponho a cabeça para fora(esvaziando o ar que comprimia meu peito) sinto minha face voltar a arder; e sei que quando subir ao bote meus músculos também voltarão ao seu estado de dor – que me acompanha há tanto tempo nessa viagem.
Deito na água, relaxando meu corpo. Ou me machucando talvez, pois o sol serve apenas como sofrimento a mais para minha já descamada pele. O sofrimento excessivo não me incomoda tanto, penso nele nesse momento como um escape de prazer, ao menos. O tormento da minha alma é tão grande que sofrer ou não não faz muita diferença. Pelo contrário, proporciona-me uma espécie de prazer sádico.
Continuei boiando ali por tanto tempo que ao encontrarem meu corpo, três dias depois, achavam que havia morrido em paz. É, eu sempre fui boa em enganar as pessoas...

Saturday, June 27, 2009

Você fala em palavras as verdades que há muito já admiti. Proferidas assim em voz alta, porém, me parecem mais verdadeiras, mais sinceras, mais atordoantes. Não consegui fechar os ouvidos em tempo suficiente para não ouvir o que você tinha a me dizer - um comentário qualquer, em uma noite qualquer, que porém para mim pelo menos por vinte e quatro horas conseguiu me deixar modificada.
Sua verdade me habita. E você não significa nada para mim, apenas mais uma persona, e mais uma professora de verdades(e de mentiras também, todos nós proferimos mais mentiras do que verdades).
Você cumpre seu papel, eu cumpro o meu, e continuamos vivendo. Banalmente vivendo... E aqui estou, escrevendo e me resgatando.
Nao se entende, não se sabe. Dizer que se entende, que se sabe o que quer, quase sempre é uma mentira - não vou dizer que sempre, não serei generalista a esse ponto. Mas entre querer se proteger, querer se satisfazer, querer ser feliz, e querer entender, há abismos enormes no meio de cada um desses quereres. E estamos sempre perdidos nesse buraco, cegos pela escuridão da luz que não entra, da luz que é tapada por cada um de nossos desejos.
A gente busca o equilibrio, mas nos esquecemos que temos sentimentos. Sentir significa falta de equilibrio, falta de estabilidade... suponho que o equilibrio seria a completa racionalização. Ah, se assim o pudesse ser....!

Fernando Pessoa

"E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende.

Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei.

Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pregados."

Monday, December 15, 2008

Mentiras

(texto antigo, que achei por aqui e resolvi posta-lo)




Ao se aproximarem, não havia certeza de que poderia realmente ser feito. Era um beijo tímido, pequeno, duvidoso da reciprocidade da companheira. Mas logo a cautela foi deixada de lado, e as bocas começaram a agir abertamente, com uma ferocidade que facilmente poderia ser confundida com duas pessoas se engolindo. Mero engano.
O movimentar dos lábios era suave, os seios se encostavam e as mãos acariciavam e exploravam cada centimetro que estava ao seu alcance, não como reflexo do amor, mas sim do prazer, do orgasmo, do fetiche. Tais atos, apesar de puramente carnais, conseguirão posteriormente transformar o sentimento em algo muito maior e dessa forma o amor aperfeiçoará cada detalhe do ato sexual.
Elas vão para a cama. Não escondidas dos pais, mas sim como amigas. São meninas puras e inocentes, que vão fofocar sobre a vida e meninos em seu quarto, acreditam. Mas lá dentro, tal pureza se esvai. A única coisa que importa, naquele dado instante, é dar prazer a companheira, sentir o corpo dela tremer com suas mãos, boca, língua. E assim, dando prazer, recebe-se prazer.
Após o sexo, o carinho de um casal apaixonado. As duas deitadas na cama, abraçadas, conversando até a hora do almoço, quando batem na porta. Sabem que cada segundo dormido é um segundo perdido. Não iriam ficar na companhia uma da outra para sempre.
- Vem cá, pequena, fique aqui comigo. Minha avó pode esperar 5 minutos.
- Eles não desconfiam de você estar dormindo com uma garota de porta trancada?
- Nada... Eu passo o dia todo de porta trancada, não consigo ficar dentro do quarto com ela aberta. Eu gosto da sensação de privacidade. Eles estão acostumados a essa porta ficar trancada, mesmo quando estou sozinha.
- E, de qualquer forma, não desconfiam de você, não é?
- Imagino que não, senão você não estaria aqui.
- O pior cego é aquele que não quer ver...
- Com certeza. Agora vem cá, pequena, me dá um beijo.
E se beijam carinhosamente. Uma das meninas começa a pensar nessa paranóia de privacidade que ela tinha. Sim, ela era realmente exagerada com isso, não deixava ninguém saber de sua vida, principalmente a família. Sua mãe não a conhecia de verdade, isso era um fato. Mas possivelmente o motivo disso estava em sua sexualidade. Tinha que levar uma vida de mentiras, inventando lugares, pessoas, inventando historias que, muitas vezes, nunca chegaram perto de acontecer. Pensou com tristeza como era triste todo esse preconceito. Se lembrou de seu irmão, na cozinha de sua avó, beijando a namorada na frente dela. Mundo injusto, porque não podia fazer isso com a sua Pequena? Queria mostrar para o mundo que a amava, pegar em suas mãos, beijar a sua boca e saber que ninguém esta se incomodando com isso. Queria sentir o orgulho de sua avó, de sua mãe, que sua filhinha está namorando, a menina que pus no mundo, que orgulho! Mas nada disso jamais chegou a acontecer. Seus curtos namoros – ela nunca teve capacidade de manter algo mais sério, ao contrario de sua Pequena, que teve namoros de longa duração – nunca teve o consentimento da mãe, mesmo quando ela namorava um homem. Sexo nunca e ao mesmo tempo sempre foi tabu em casa, e o modo antinatural com que sua mãe falava de relacionamentos sempre afastou-a de tocar no assunto, mesmo quando ela namorava alguém do sexo oposto ao seu. Mentiras. Mentiras contadas para todo mundo viver melhor, cada um acreditando naquilo que deseja saber. Até que ponto isto é ruim?

Vazio

(texto antigo, que achei por aqui e resolvi posta-lo)




Sinto o vazio escorrer dentro de mim, sem explicações, sem pudor, apenas um vazio. É o tipo mais angustiante que se pode ter, que se pode existir, já que não há explicações concretas e, ao mesmo tempo, há milhares de explicações.
A vida fútil de cervejas e pseudo-amigos, nada sincero, nada forte. Paixões que inexistem, cadê minha menina pra poder dormir comigo, pra me fazer companhia nas noites solitárias, pra ficar horas no telefone dissertando sobre a vida, contando cada detalhe de nossos cotidianos? Não há ninguém, não há amigos, não há a minha menina. Existem, sim, pessoas. Pessoas para conversar, para soltar umas risadas, mas depois voltar para casa, no meu canto solitário.
Sou formada de carne, osso, células. Só. Sou formada de momentos, de estudos, de cerveja, de uma festa, aqui ou acolá. Não sou formada por sentimentos, por companheiros, apenas a frieza que me doe é o que sinto aqui dentro. Nada duradouro, nada eterno, apenas o eco.
E a pergunta: Eu mudei? Daquela menina sujinha, magricela, de óculos, isolada e que gostava de jogar futebol, para uma pessoa sociável, freqüentadora de festas, não mais magricela, sem óculos, gay.
Não vejo tanta mudança, não na essência, apenas a aparência que se manteve. Continuo com pseudo-amigos, continuo fechada para minha família, quem sabe o que se passa dentro de mim? Talvez por isso sinto esse grito mudo que agora percorre cada músculo do meu corpo, e das lágrimas que escorrem em minhas bochechas, sem explicação. Quando começa a se esvair os sentimentos, começa esse choro, que no fundo não tem uma desculpa concreta, material, palpável. Ninguém da minha família morreu, não me machuquei, não ouvi de ninguém palavras fortes, sinceras e atordoantes. Ninguém fez uso disso, talvez porque não seja necessário, o não dito diz muito mais do que o dito. O não dito do grupo, do coletivo, das pessoas que encontro pela rua, que abraço, converso, e depois vou embora. Não sou amiga dessas pessoas, ao menos não de verdade. Não ligarei para papos eternos no telefone.
Sou como uma bola de futebol, que após ser divertida, brincada e usada é posta em seu canto, no armariozinho da cozinha, sozinha e sem ninguém. Estou no fundo do armário, em tantos sentidos...

Friday, April 04, 2008

Olhares


Um olhar nervoso no supermercado. Escondido, pecaminoso, proibido. Mas apaixonante ao se ver retribuído. Para um homem de cinqüenta anos, é difícil admitir que há espaço para novas paixões, torna-se muito mais fácil entender a situação como um mero interesse, passageiro e sem resultados.
Parado na fila do caixa, sente a pessoa atrás de si, esperando sua vez de pagar. O senhor se sente como um colegial, ansioso, atrapalhando- se com as compras e com os olhos exageradamente azuis do desconhecido. Não consegue sustentar tal olhar, prefere reparar nas sacolas plásticas, que não exalam vida, não conservam perigo, não deixará o nosso homem sem reação.
Vê um chocolate e resolve pegá-lo. Ao estender o braço, sente sua pele roçar no comprador atrás de si, pêlo com pêlo. Pede desculpas, o estranho sorri. Um sorriso que, de tão claro e tão simpático, chegaria a desmontar a mais raivosa das almas. E desmontou. Não uma alma raivosa, mas uma alma recém-apaixonada, reciclada, uma alma que gostaria de conservar esse momento para a eternidade.
Mas o instante passa, as compras são pagas e cada um vai para sua casa. Foi apenas um segundo, um minuto, que perecerá na lembrança de seus protagonistas por um século.
E a paixão, que poderia ter mudado o resto da vida das pessoas, mudou o resto da memória. Pecaminosa, sim; mas através do que, senão de pecados, é que se formam os momentos de prazer que dão sentido a existência?

Sunday, March 25, 2007

Relacionamento


O copo de cerveja é colocado em minha frente, como uma doce tentação. Sinto meus lábios tocarem o vidro gelado e o amargo liquido prazeroso escorrer pela minha garganta, na forma de aviso de que o céu ainda existe. E assim permaneço, pacientemente bebendo.
A garota de lábios finos se senta na minha frente, sorrindo e fazendo meu coração se derreter. Se esse amor que sinto por ela é momentâneo ou não, não sei dizer. O movimentar suave de línguas, uma boca sentindo o gosto da outra, tudo isso me mantém em um estado de profundo êxtase, fazendo meus pêlos do braço se arrepiarem lentamente, ao sentir o corpo de minha companheira. Enfeitiçada a olho, como uma criança observa seus mais novos brinquedos.

Minhas duas grandes paixões, em mais um momento de puro orgasmo. Senti que poderia permanecer assim pra sempre, alternando a ocupação de meus lábios. Uma hora a bebida, outra a minha querida. Seria o mundo das maravilhas se não tivesse que me levantar e ir para casa.
O metro fecha, fechando também minhas esperanças de felicidade eterna, que sinto a cada vez que me vejo acompanhada pelos meus amores. A cerveja não é importante, apenas quero uma companhia que me deixe satisfeita com meus sentimentos. Consigo-a por alguns dias, no máximo semanas e depois me resta somente lembranças. Arranjo novas pessoas, o ciclo se repete e a palavra relacionamento nunca é firmada. Palavra esta que não é meu maior problema nem solução, mas a idéia de se ter alguém que me ajudará a sustentar meus alicerces quando a casa cair me é convidativa.






Levanto-me da mesa, beijo os lábios de minha companheira temporária e volto para casa. Sozinha, mais uma vez.

Monday, September 25, 2006



Levo o cigarro até a boca e acendo-o. Trago as incertezas, na esperança que a fumaça que sai de minha boca fará meu inconsciente se abrir para o mundo. Enquanto um garoto tenta me beijar, sorrio para outro, com um entendimento que não pode ser expresso em palavras. Saia de cima de mim, quero apenas fumar o meu cigarro e não precisar te beijar. Deixe-me olhar para seu colega e perceber essa cumplicidade que surgiu, uma cumplicidade que o sexo não cria.

Por que você não me beija?, me pergunta um animal. Minha língua não foi feita para você, transforme-se em uma mulher ou deixe de ser uma figura repetida em meu álbum. Um álbum pequeno, não nego e que ainda está esperando ser completado. Bancas próximas vendem artigos para completá-lo, entretanto a maioria não me satisfaz. A exigência é meu maior defeito e qualidade.

Gosto e espero viver o máximo possível, sem ao menos me permitir isso. Sou um mar de incertezas dentro das paredes fechadas de uma sala. A mente precisa estar presente para viver e a minha não esta. Pessoas do salão esperam que eu esteja ao lado delas e não notam que apenas o corpo não basta. Os pensamentos ficam longe, tentando entender os momentos passados, sem perceber que os presentes estão se indo.