Feminina loucura
Ah, mas essa loucura deliciosa e destrutiva... Loucas são as mulheres, piores ainda ainda são os que as amam.



Um olhar nervoso no supermercado. Escondido, pecaminoso, proibido. Mas apaixonante ao se ver retribuído. Para um homem de cinqüenta anos, é difícil admitir que há espaço para novas paixões, torna-se muito mais fácil entender a situação como um mero interesse, passageiro e sem resultados.
Parado na fila do caixa, sente a pessoa atrás de si, esperando sua vez de pagar. O senhor se sente como um colegial, ansioso, atrapalhando- se com as compras e com os olhos exageradamente azuis do desconhecido. Não consegue sustentar tal olhar, prefere reparar nas sacolas plásticas, que não exalam vida, não conservam perigo, não deixará o nosso homem sem reação.
Vê um chocolate e resolve pegá-lo. Ao estender o braço, sente sua pele roçar no comprador atrás de si, pêlo com pêlo. Pede desculpas, o estranho sorri. Um sorriso que, de tão claro e tão simpático, chegaria a desmontar a mais raivosa das almas. E desmontou. Não uma alma raivosa, mas uma alma recém-apaixonada, reciclada, uma alma que gostaria de conservar esse momento para a eternidade.
Mas o instante passa, as compras são pagas e cada um vai para sua casa. Foi apenas um segundo, um minuto, que perecerá na lembrança de seus protagonistas por um século.
E a paixão, que poderia ter mudado o resto da vida das pessoas, mudou o resto da memória. Pecaminosa, sim; mas através do que, senão de pecados, é que se formam os momentos de prazer que dão sentido a existência?

